Irene

April 17, 2007

Ele gostava tanto da Irene que nem dormia de noite. Ficava rolando na cama, contando carneirinhos e Irenes. Gostava tanto, mas tanto, que sentia o perfume dela a distância e sabia quando ela estava num dia ruim. A Irene sabia, só que fingia que não tava nem aí. E ele achava tão bonito gostar assim de alguém que nem ligava. Ele gostava de gostar da Irene.

Falar da Irene era fazer poesia. Ele dizia que os olhos dela eram de uma cor de mel, difícil de definir. Não eram verdes, nem castanhos: eram da cor dos olhos da Irene. Os cabelos da Irene também não eram castanhos, nem louros. Eram os cabelos da Irene e combinavam com o perfume dela, que nunca ninguém encontrou pra comprar, nem na loja mais fina da cidade, porque era o perfume da Irene e pronto, não dava pra engarrafar.

A vida dele era tão cheia de Irene, que nem a Irene entendia. Ele falava que ela era mais bonita que todas as estrelas do céu juntas e mais doce que jabuticaba bem madura. E ela, morrendo de vergonha, ria com um lado só da boca, de um jeito sem-graça que fazia uma covinha bem no canto da bochecha – covinha de Irene. Ele sorria só de ver a Irene sorrir e tinha certeza que ninguém nunca ia gostar dela como ele gostava.

E doía. Doía lá dentro, perto do coração, de tanto que ele gostava da Irene. Até que uma noite, depois de não dormir pensando na Irene, doeu tanto que ele não acordou. Quando ficou sabendo, a Irene não sorriu daquele jeito que fazia covinha, mas saiu correndo pra dentro de casa e desatou a chorar. Porque ela sabia que era verdade que, daquele jeito que ele gostava dela, ninguém nunca mais ia gostar. Parecia que ele tinha gostado tudo o que tinha pra gostar da Irene, e não tinha sobrado mais nada.

Mas com o tempo, a Irene entendeu que não fazia mal. “Ter alguém que goste desse jeito da gente, pode ser só uma vez na vida, não é mesmo?” Ela começou a achar, até, que era melhor dessa maneira, porque se outra pessoa gostasse tanto assim dela, era capaz de ela não dar conta. E foi assim que a Irene parou de chorar.

Nesse dia, em algum lugar que até hoje ninguém sabe onde é, ele ficou muito triste. Era medo de que a Irene parasse de chorar por ele pra chorar por outro, porque esse outro não ia gostar dela como ela tinha de ser gostada. Não ia ver a covinha que ele sabia que tinha lá no canto da bochecha quando ela ria envergonhada e não ia saber definir a cor dos olhos da Irene. Mas o pior de tudo era que esse outro não ia saber que a Irene era poesia até quando chorava.

L.

4 Comments »

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  1. Laura,
    Obrigado pela visita.
    Sabe que nunca comi jabuticaba?
    Abraço

    Comment by Celso Lima — April 18, 2007 @ 1:07 am

  2. Quando li este texto, lembrei do dia em te dei a “vida íntima de Laura”. Obrigada pelos lindos textos

    Comment by Cleusa — April 19, 2007 @ 1:23 pm

  3. Lau,
    que texto lindo.. adorei! Super fofinho :)
    beijo!

    Comment by Carol — April 23, 2007 @ 12:42 am

  4. “todo grande amor só é bem grande se for triste”

    Bonita e triste a história da Irene! Quem nunca teve uma Irene, né?

    Beijo!
    Vem pra floripa! :P

    Comment by LeÚ — April 29, 2007 @ 10:47 pm

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