Edu
Foi numa tarde de chuva que eu conheci o Edu. Eu estava saindo da biblioteca, com livros e caderno debaixo do braço, bolsa a tiracolo, um longo caminho até o ponto de ônibus e nenhum guarda-chuva, quando começou a chover como há muito tempo não chovia. Na marquise à frente da porta, quando pensava se enfrentava o aguaceiro ou se perdia algumas horas da minha vida esperando a chuva passar, levei um susto: - Quer uma carona? Ele usava óculos e mostrava um sorriso amável, de quem está sempre de bem com a vida, mesmo quando o mundo parece desabar em cima da biblioteca. O Edu era um desses simpáticos incansáveis. Menos pelo sorriso do que pelo guarda-chuva que ele carregava na mão esquerda, aceitei a carona. - Vou para o ponto de ônibus, está no seu caminho? - Sim, vou pra lá também! – respondeu ele, com a felicidade de quem acaba de descobrir uma grande coincidência. Esse era o Edu: maravilhado com as pequenas bobagens do mundo e sempre a postos. Alto, tinha uma franjinha que caía o tempo todo em cima dos óculos. E assim nos cruzamos muitas outras vezes. Na biblioteca, no ponto de ônibus ou simplesmente pelo Campus. Com chuva ou sem chuva, lá estavam o Edu e o seu sorriso irremediável. Ele tinha vindo de São Paulo, fuga totalmente compreensível, já que se trata de uma cidade incompatível com o jeito Edu de ser. Dividia apartamento com uns colegas e fazia… Filosofia. É claro que ele fazia Filosofia… Num desses encontros casuais, ele apareceu com um sorriso diferente, nervoso, e, depois de gaguejar por alguns minutos, disse que queria me mostrar uma coisa muito, muito importante. Mas que tinha que ser no dia seguinte e que eu precisava encontrá-lo ali mesmo, no mesmo horário. Marcamos e, no dia seguinte, lá estava o Edu com seu violão na mão. Sim, é óbvio que o Edu tocava violão: todos os intelectuais simpáticos tocam violão. Ele me levou até um desses banquinhos à sombra de uma árvore, tirou o violão da capa, conferiu a afinação, fez o primeiro acorde e disse: - Se chama “Mariana”. Mas se você quiser, eu mudo o nome, tá? O Edu tinha feito uma música pra mim. Bonita, calma, suave, assim como qualquer música que eu poderia imaginar que ele compusesse. Falava de olhos verdes e de uma tarde de chuva em frente à biblioteca. Não tive reação. Fiquei estática, a boca meio aberta, olhando para ele. - Eu sabia que você não ia gostar. Mas pode falar, eu não me ofendo. - Imagina, Edu, a música é linda. Não é nada disso, é que… – eu não tinha mesmo desculpa pra minha falta de reação. - Tudo bem, Mariana, eu entendo. Não esperava que você gostasse mesmo, é que eu precisava te mostrar, sabe? Eu fico guardando essas coisas muito tempo e eu sei que não é legal. Porque aí quando eu resolvo me expressar sai tudo assim meio torto, meio errado… Nunca tinha visto o Edu nervoso. Não só ele desmanchava o sorriso, mas também desandava a falar de uma maneira inacreditável. E enquanto falava, ia abaixando a cabeça, a franja cobrindo cada vez mais o rosto, mas não o suficiente pra eu deixar de perceber que ele começava a chorar. Tão desajeitada quanto as palavras do Edu, afastei os cabelos do rosto dele e abaixei o meu até que ele pudesse me ver de novo. Foi quando ele me puxou pra mais perto e me deu um beijo. Desajeitado, mas doce, como eu esperava que fosse um beijo do Edu. Quando abriu os olhos, viu que eu ainda estava em choque, levantou e saiu apressado com o violão na mão. Só fui encontrar o Edu uns dois meses depois, na saída da biblioteca. Chovia, mas não tanto quanto no dia em que nos conhecemos, e eu tinha uma sombrinha dessa vez. Olhei pra ele e sorri meio sem jeito. Ele sorriu de volta, com um sorriso que não era o tradicional, mas que também não chegava a ser o sorriso nervoso da véspera do beijo. Não sei como, criei coragem: - Você mudou o nome? Ele sorriu de verdade e fez que não com a cabeça, olhado pro chão. - Você não falou que queria que eu mudasse, então deixei… - Mas é pra deixar mesmo. Só perguntei pra ter certeza. Ficamos os dois olhando pra chuva por mais alguns segundos. - Quer uma carona? – perguntou ele mostrando o guarda-chuva. Olhei para a minha sombrinha, fechei e coloquei de volta na bolsa. No caminho até o ponto de ônibus, ele me contou que estava voltando para São Paulo. Havia trancado a faculdade pra passar um tempo com a mãe, que estava doente, mas prometeu que um dia voltava. Decidiu ir andando pra casa naquele dia, pois não estava chovendo tanto assim e ele estava duro até pra pagar o ônibus. Nos despedimos com um beijo. Tão doce quanto e bem menos desajeitado que o primeiro. - Vou deixar o nome então, tá? - Tá. Talvez o Edu tenha até voltado, mas nunca mais o vi. Ele é mesmo dessas figuras que passam pela vida de alguém e deixam algo como dois beijos, um sorriso inconfundível e a felicidade de ser nome de música. L.

Todo mundo sabe que o primeiro beijo é sempre algo mágico e tals. Mas foi a primeira vez que eu li a magia de um primeiro beijo num texto. Eu diria que o resultado é uma inveja danada, em uns quatrocentos sentidos diferentes!
TADM!
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Comment by Luiz — May 2, 2007 @ 11:40 pm
Oi Laura, o André me passou o link pro teu blog. Nossa, estou realmente impressionada, pois você escreve muito bem! Vou ser mais uma “regular” aqui no seu blog! Keep up with the good work
Comment by Grazi (pseudo-cunhada) — May 19, 2007 @ 11:11 am