A caixa

July 2, 2007

Não era por falta de companhia, nem por saudades de alguém. Também nunca lhe faltou dinheiro, conforto ou saúde. Tampouco eram os filhos, que tentavam por demais ajudar, ou os netos, que faziam arruaça dia e noite. Disso ele até gostava. Não dizia, mas fazia com que ele se sentisse bem quisto e lhe trazia vida ao coração.

E não faltava quem fizesse teorias: vizinhos, parentes, velhos amigos, conhecidos, fofoqueiros. Todos tinham sua opinião. “É amargura de quem não viveu um grande amor”. “Cansaço de quem levou a vida a sério demais”. “Dor de não ter realizado sonhos”. “Saudades daquilo que não teve”. Nada disso. Tinha vivido a vida como ela deve ser vivida. Tinha amado e sido amado. E muito. Tinha dito adeus e sido abandonado. Tinha sonhado alto, belos e inatingíveis sonhos. E realizado todos eles. Tinha viajado o mundo, conhecido o que de mais puro e de mais horrendo o ser humano fora capaz até então.

Os mais chegados diziam então que eram dores acumuladas em toda essa trajetória. Havia quem falasse sobre um grande amor do passado. “Uma bailarina francesa que o deixou pelo Bolshoi de Moscou”, afirmavam. E havia também quem dissesse que, em algum lugar do Oriente, possivelmente próximo ao Tibete, ele ouvira segredos impensáveis sobre Deus e os homens. E levava sobre os ombros o peso de quem sabe demais.

O fato é que ele tinha um mistério. Tinha nos olhos uma tristeza profunda, que não se explica com um dia ruim. Nas costas curvas, a carga de uma longa vida. Nos cabelos, um branco sério e nas mãos, os calos que lhe lembravam o trabalho e o suor. Falava pouco e ria menos ainda. No entanto, sorria. Um sorriso doce e triste, mas sorria. Cumprimentava todos. Conhecidos ou não. Em sua caminhada matinal pelas ruas do bairro, para qualquer um que o olhasse nos olhos, parava apoiado sobre a bengala, sorria e fazia reverência, tirando o chapéu.

E era à noite, no quarto, sob a luz do abajur, que dividia consigo mesmo seu segredo. Arrastando os chinelos, com os passos curtos de quem deixou a bengala ao lado da porta, ia até a beirada da cama, sentava e abaixava-se para pegar a caixa que guardava sob o criado mudo. Abria a caixa, apoiada sobre o colo. E era então que seu rosto se iluminava com o sorriso mais belo, sincero e alegre que alguém pode sorrir. De dentro dela, da caixa, pulavam todos eles: os mais humildes e os mais ambiciosos sonhos que já tinham passado por sua vida. Com eles, dançava, cantava e gargalhava, como nos seus vinte e poucos anos.

Quando o sol raiava, fechava a caixa, tomava seu banho, vestia-se com um dos seus elegantes ternos e saía para a caminhada matinal. Para qualquer um que o olhasse nos olhos, parava apoiado sobre a bengala, sorria e fazia reverência, tirando o chapéu. Devolvia então o olhar aos olhos do passante e lhe dava o único sorriso possível: doce porém triste. Pois o que via nos olhos do outro era a coisa mais triste do mundo: alguém que não sabia guardar, cuidar e brincar com seus sonhos.

L.