La Plaza

March 28, 2008

Había allá una plaza, como toda plaza:

con sus niños, sus novios y sus palomas.

Una plaza con bancos vacíos y en su centro, una estatua triste.

Alrededor de la plaza había caminos,

que llevaban a calles, campos, hogares y sueños.

Meios

October 27, 2007

Ando meio sem rumo e meio sem assunto. Meio com frio, meio com sono e meio irritada. Meio cansada e tão meio sem nada que meio sem motivo fico meio amuada. E meio rimando, meio contrariada, ando meio em primeira e meio em marcha-ré.

Ando meio ao meio e meio sem meios. Meu copo, se andasse, andaria meio cheio, meio vazio, meio quebrado. Ando tão meio a meio que vejo lá fora um meio inverno, meio verão. É esse meio sol, que meio que ilumina, mas faz meia sombra no meio da rua, mesmo quando meio que chove. E, no meio de tudo isso, até minha pizza é meia toscana, meia margherita.

Ando meio a pé, meio de ônibus, meio perdida, no meio da rua. Danço em meia-ponta e toco um piano meia-cauda, sempre meio sorrindo e meio chorando. Meio feliz, meio deslumbrada, meio tudo, meio nada.

Tão meio pelo meio, que me contento com meio texto, cheio de meias palavras.

A caixa

July 2, 2007

Não era por falta de companhia, nem por saudades de alguém. Também nunca lhe faltou dinheiro, conforto ou saúde. Tampouco eram os filhos, que tentavam por demais ajudar, ou os netos, que faziam arruaça dia e noite. Disso ele até gostava. Não dizia, mas fazia com que ele se sentisse bem quisto e lhe trazia vida ao coração.

E não faltava quem fizesse teorias: vizinhos, parentes, velhos amigos, conhecidos, fofoqueiros. Todos tinham sua opinião. “É amargura de quem não viveu um grande amor”. “Cansaço de quem levou a vida a sério demais”. “Dor de não ter realizado sonhos”. “Saudades daquilo que não teve”. Nada disso. Tinha vivido a vida como ela deve ser vivida. Tinha amado e sido amado. E muito. Tinha dito adeus e sido abandonado. Tinha sonhado alto, belos e inatingíveis sonhos. E realizado todos eles. Tinha viajado o mundo, conhecido o que de mais puro e de mais horrendo o ser humano fora capaz até então.

Os mais chegados diziam então que eram dores acumuladas em toda essa trajetória. Havia quem falasse sobre um grande amor do passado. “Uma bailarina francesa que o deixou pelo Bolshoi de Moscou”, afirmavam. E havia também quem dissesse que, em algum lugar do Oriente, possivelmente próximo ao Tibete, ele ouvira segredos impensáveis sobre Deus e os homens. E levava sobre os ombros o peso de quem sabe demais.

O fato é que ele tinha um mistério. Tinha nos olhos uma tristeza profunda, que não se explica com um dia ruim. Nas costas curvas, a carga de uma longa vida. Nos cabelos, um branco sério e nas mãos, os calos que lhe lembravam o trabalho e o suor. Falava pouco e ria menos ainda. No entanto, sorria. Um sorriso doce e triste, mas sorria. Cumprimentava todos. Conhecidos ou não. Em sua caminhada matinal pelas ruas do bairro, para qualquer um que o olhasse nos olhos, parava apoiado sobre a bengala, sorria e fazia reverência, tirando o chapéu.

E era à noite, no quarto, sob a luz do abajur, que dividia consigo mesmo seu segredo. Arrastando os chinelos, com os passos curtos de quem deixou a bengala ao lado da porta, ia até a beirada da cama, sentava e abaixava-se para pegar a caixa que guardava sob o criado mudo. Abria a caixa, apoiada sobre o colo. E era então que seu rosto se iluminava com o sorriso mais belo, sincero e alegre que alguém pode sorrir. De dentro dela, da caixa, pulavam todos eles: os mais humildes e os mais ambiciosos sonhos que já tinham passado por sua vida. Com eles, dançava, cantava e gargalhava, como nos seus vinte e poucos anos.

Quando o sol raiava, fechava a caixa, tomava seu banho, vestia-se com um dos seus elegantes ternos e saía para a caminhada matinal. Para qualquer um que o olhasse nos olhos, parava apoiado sobre a bengala, sorria e fazia reverência, tirando o chapéu. Devolvia então o olhar aos olhos do passante e lhe dava o único sorriso possível: doce porém triste. Pois o que via nos olhos do outro era a coisa mais triste do mundo: alguém que não sabia guardar, cuidar e brincar com seus sonhos.

L.

Cores

May 23, 2007

A tristeza é muito mais cinza do que azul. Por isso nunca entendi o duplo sentido da palavra “blue” em inglês. Nunca entendi, na verdade, muitas das cores atribuídas a sensações por cultura popular ou imaginação fértil.

Às vezes eu sinto cores. Mas sinto uma inveja verde-musgo, uma paixão alaranjada. Assim como vira e mexe me dá uma fome marrom ou uma raiva rosa-choque. E levante a mão quem nunca ficou vermelho de tanto desgosto ou verde-água de decepção.

Aquele sorriso? Não, não é amarelo como te fizeram acreditar a vida inteira. Ele é bege. Caramelo. Ocre. Amarelo é o desejo: amarelo-ouro. E que surpresa não foi a minha quando descobri que a saudade tem a mesma cor da alegria: lilás. A saudade, quando dói, é de um lilás azulado, puxando pro roxo, mas se revigora e chega a um quase-rosa quando o telefone toca. Rosado mesmo, até com um toque cereja, é o lilás da alegria.

O azul? Ah, o azul é de todas as sensações, menos da tristeza. Ele é marinho na angústia, céu no frio na barriga e bebê na paz. Olhando bem, ele está até mesmo no laranja-amarelado da felicidade.

Mas o maior absurdo mesmo é essa história que corre à boca pequena de que a cor do amor é o vermelho. O amor é branco, sempre foi. O mesmo branco da crista das ondas, do algodão-doce, da folha de papel aguardando as idéias. De tão branco, ele é quase azul. Quase verde. E com um quê de rosa. É tão branco, que é quase arco-íris.

L.

Edu

April 30, 2007


Foi numa tarde de chuva que eu conheci o Edu. Eu estava saindo da biblioteca, com livros e caderno debaixo do braço, bolsa a tiracolo, um longo caminho até o ponto de ônibus e nenhum guarda-chuva, quando começou a chover como há muito tempo não chovia. Na marquise à frente da porta, quando pensava se enfrentava o aguaceiro ou se perdia algumas horas da minha vida esperando a chuva passar, levei um susto:

- Quer uma carona?

Ele usava óculos e mostrava um sorriso amável, de quem está sempre de bem com a vida, mesmo quando o mundo parece desabar em cima da biblioteca. O Edu era um desses simpáticos incansáveis. Menos pelo sorriso do que pelo guarda-chuva que ele carregava na mão esquerda, aceitei a carona.

- Vou para o ponto de ônibus, está no seu caminho?

- Sim, vou pra lá também! – respondeu ele, com a felicidade de quem acaba de descobrir uma grande coincidência. Esse era o Edu: maravilhado com as pequenas bobagens do mundo e sempre a postos. Alto, tinha uma franjinha que caía o tempo todo em cima dos óculos.

E assim nos cruzamos muitas outras vezes. Na biblioteca, no ponto de ônibus ou simplesmente pelo Campus. Com chuva ou sem chuva, lá estavam o Edu e o seu sorriso irremediável. Ele tinha vindo de São Paulo, fuga totalmente compreensível, já que se trata de uma cidade incompatível com o jeito Edu de ser. Dividia apartamento com uns colegas e fazia… Filosofia. É claro que ele fazia Filosofia…

Num desses encontros casuais, ele apareceu com um sorriso diferente, nervoso, e, depois de gaguejar por alguns minutos, disse que queria me mostrar uma coisa muito, muito importante. Mas que tinha que ser no dia seguinte e que eu precisava encontrá-lo ali mesmo, no mesmo horário. Marcamos e, no dia seguinte, lá estava o Edu com seu violão na mão. Sim, é óbvio que o Edu tocava violão: todos os intelectuais simpáticos tocam violão. Ele me levou até um desses banquinhos à sombra de uma árvore, tirou o violão da capa, conferiu a afinação, fez o primeiro acorde e disse:

- Se chama “Mariana”. Mas se você quiser, eu mudo o nome, tá?

O Edu tinha feito uma música pra mim. Bonita, calma, suave, assim como qualquer música que eu poderia imaginar que ele compusesse. Falava de olhos verdes e de uma tarde de chuva em frente à biblioteca. Não tive reação. Fiquei estática, a boca meio aberta, olhando para ele.

- Eu sabia que você não ia gostar. Mas pode falar, eu não me ofendo.

- Imagina, Edu, a música é linda. Não é nada disso, é que… – eu não tinha mesmo desculpa pra minha falta de reação.

- Tudo bem, Mariana, eu entendo. Não esperava que você gostasse mesmo, é que eu precisava te mostrar, sabe? Eu fico guardando essas coisas muito tempo e eu sei que não é legal. Porque aí quando eu resolvo me expressar sai tudo assim meio torto, meio errado…

Nunca tinha visto o Edu nervoso. Não só ele desmanchava o sorriso, mas também desandava a falar de uma maneira inacreditável. E enquanto falava, ia abaixando a cabeça, a franja cobrindo cada vez mais o rosto, mas não o suficiente pra eu deixar de perceber que ele começava a chorar. Tão desajeitada quanto as palavras do Edu, afastei os cabelos do rosto dele e abaixei o meu até que ele pudesse me ver de novo. Foi quando ele me puxou pra mais perto e me deu um beijo. Desajeitado, mas doce, como eu esperava que fosse um beijo do Edu. Quando abriu os olhos, viu que eu ainda estava em choque, levantou e saiu apressado com o violão na mão.

Só fui encontrar o Edu uns dois meses depois, na saída da biblioteca. Chovia, mas não tanto quanto no dia em que nos conhecemos, e eu tinha uma sombrinha dessa vez. Olhei pra ele e sorri meio sem jeito. Ele sorriu de volta, com um sorriso que não era o tradicional, mas que também não chegava a ser o sorriso nervoso da véspera do beijo. Não sei como, criei coragem:

- Você mudou o nome?

Ele sorriu de verdade e fez que não com a cabeça, olhado pro chão.

- Você não falou que queria que eu mudasse, então deixei…

- Mas é pra deixar mesmo. Só perguntei pra ter certeza.

Ficamos os dois olhando pra chuva por mais alguns segundos.

- Quer uma carona? – perguntou ele mostrando o guarda-chuva.

Olhei para a minha sombrinha, fechei e coloquei de volta na bolsa. No caminho até o ponto de ônibus, ele me contou que estava voltando para São Paulo. Havia trancado a faculdade pra passar um tempo com a mãe, que estava doente, mas prometeu que um dia voltava. Decidiu ir andando pra casa naquele dia, pois não estava chovendo tanto assim e ele estava duro até pra pagar o ônibus. Nos despedimos com um beijo. Tão doce quanto e bem menos desajeitado que o primeiro.

- Vou deixar o nome então, tá?

- Tá.

Talvez o Edu tenha até voltado, mas nunca mais o vi. Ele é mesmo dessas figuras que passam pela vida de alguém e deixam algo como dois beijos, um sorriso inconfundível e a felicidade de ser nome de música.

L.

Irene

April 17, 2007

Ele gostava tanto da Irene que nem dormia de noite. Ficava rolando na cama, contando carneirinhos e Irenes. Gostava tanto, mas tanto, que sentia o perfume dela a distância e sabia quando ela estava num dia ruim. A Irene sabia, só que fingia que não tava nem aí. E ele achava tão bonito gostar assim de alguém que nem ligava. Ele gostava de gostar da Irene.

Falar da Irene era fazer poesia. Ele dizia que os olhos dela eram de uma cor de mel, difícil de definir. Não eram verdes, nem castanhos: eram da cor dos olhos da Irene. Os cabelos da Irene também não eram castanhos, nem louros. Eram os cabelos da Irene e combinavam com o perfume dela, que nunca ninguém encontrou pra comprar, nem na loja mais fina da cidade, porque era o perfume da Irene e pronto, não dava pra engarrafar.

A vida dele era tão cheia de Irene, que nem a Irene entendia. Ele falava que ela era mais bonita que todas as estrelas do céu juntas e mais doce que jabuticaba bem madura. E ela, morrendo de vergonha, ria com um lado só da boca, de um jeito sem-graça que fazia uma covinha bem no canto da bochecha – covinha de Irene. Ele sorria só de ver a Irene sorrir e tinha certeza que ninguém nunca ia gostar dela como ele gostava.

E doía. Doía lá dentro, perto do coração, de tanto que ele gostava da Irene. Até que uma noite, depois de não dormir pensando na Irene, doeu tanto que ele não acordou. Quando ficou sabendo, a Irene não sorriu daquele jeito que fazia covinha, mas saiu correndo pra dentro de casa e desatou a chorar. Porque ela sabia que era verdade que, daquele jeito que ele gostava dela, ninguém nunca mais ia gostar. Parecia que ele tinha gostado tudo o que tinha pra gostar da Irene, e não tinha sobrado mais nada.

Mas com o tempo, a Irene entendeu que não fazia mal. “Ter alguém que goste desse jeito da gente, pode ser só uma vez na vida, não é mesmo?” Ela começou a achar, até, que era melhor dessa maneira, porque se outra pessoa gostasse tanto assim dela, era capaz de ela não dar conta. E foi assim que a Irene parou de chorar.

Nesse dia, em algum lugar que até hoje ninguém sabe onde é, ele ficou muito triste. Era medo de que a Irene parasse de chorar por ele pra chorar por outro, porque esse outro não ia gostar dela como ela tinha de ser gostada. Não ia ver a covinha que ele sabia que tinha lá no canto da bochecha quando ela ria envergonhada e não ia saber definir a cor dos olhos da Irene. Mas o pior de tudo era que esse outro não ia saber que a Irene era poesia até quando chorava.

L.

Medos

April 16, 2007

Eu lembro da primeira vez em que senti medo. Eu estava no alto de uma cachoeira e tinha uns dez anos de idade. Com toda a distração de alguém que está neste mundo há apenas dez anos, fiquei em pé para chegar até o outro lado pelas pedras, quando alguém gritou “cuidado, você pode escorregar!”. Olhei para baixo, vi a altura da cachoeira e senti na sola dos pés o limo das pedras. Foi daqueles medos que dão um frio na espinha. Meu primeiro frio na espinha.

Depois vieram outros medos. Medo de errar o caminho, de ir mal na prova, de ficar sozinha. É verdade que esses medos já existiam antes, mas eu nunca mais os senti do mesmo jeito. Desde aquele dia, meus medos vêm acompanhados do mesmo frio na espinha e me remetem à mesma cachoeira. E eu entendi a diferença entre medo e receio. Entre minhas meras inseguranças e a real possibilidade de me estatelar lá embaixo – seja onde ou o quê for “lá embaixo”.

Não consigo pensar em algo que tenha me marcado tanto quanto o primeiro frio na espinha. Nem o primeiro beijo, nem a primeira noite fora de casa, nem o primeiro animal de estimação, nem nenhuma outra primeira vez – nem mesmo aquela. O primeiro medo faz você entender que medos não são bobagens. E que algumas sensações não merecem ser chamadas de medo.

Aquele frio na espinha me mostrou não só quais são meus verdadeiros medos, como também que posso passar por eles e deixá-los para trás, por mais limo que tenham as pedras. E até hoje não lembro como cheguei do outro lado da cachoeira.

L.

Bigodes

April 12, 2007

Fiquei surpresa quando descobri para que serviam os bigodes de um gato. Surpesa e pensativa. Tudo bem que eu sempre achei mesmo que eles eram um pouco grandes pra serem meros bigodes decorativos, mas "sensores" foi um pouco demais. E não são só os bigodes. Os pêlos mais longos das "sobrancelhas" e a "barbichinha" também. Só gato mesmo.

Que outro bicho seria elegante, discreto, prático e esnobe o bastante pra colocar os sensores nas bochechas? E o meu siamês, como se não bastasse ser gato, bigodudo e siamês, ainda é petulante o suficiente pra ter bigodes coloridos. "Bicolores", me corrigiu um dia a veterinária. Humpf!

Detalhes à parte, o fato é que os bigodes do gato auxiliam o bicho no escuro. São seu radar e seu guia. Colocando esses sensores à frente do rosto, eles andam por todo lado sem tropeçar e sem se machucar.

Fico pensando como seria se as pessoas tivessem bigodes de gato - metaforicamente falando, claro. Um sistema de defesa, um radar discreto aos perigos do mundo. Perigo à vista? Cambaleou? Sentiu que vai levar uma rasteira? Hora de lançar os bigodes… e pronto! Você sai ileso e ainda faz pose de quem já nasceu rei.

Mas a verdade é que, geralmente, o radar das pessoas se assemelha mais ao dos morcegos: gritam histericamente pra descobrir onde fica a parede, ao mesmo tempo em que voam pra todos os lados como umas loucas. E depois não entendem por que a vida está de ponta-cabeça.

L.

Uma outra pessoa

April 10, 2007

Eu escrevo em quarta pessoa. Não sou eu, não és tu e não é ela. Muito menos ele. A quarta pessoa tem os cabelos da mãe, a cabeça-dura do pai e, bem… o nariz do avô. Tem os meus olhos, meu coração e meus dedos tortos. Mas não se deixe confundir: é uma outra pessoa. A quarta Pessoa não é Fernando, mas é, ela mesma, um heteronômio e acha o máximo essa sensação de anonimato que a Internet dá.

A quarta pessoa já foi pra bem longe, ri de tudo e chora por nada. Jura, por tudo na vida, que se morasse em Buenos Aires ouvia tango todos os dias. E que, depois, passeava pela Florida e tomava sorvete de doce-de-leite.

A quarta pessoa tem medo de altura, mas adora viajar de avião. Diz que lá de cima o mundo é mais simples e parece de brinquedo. Não tem vergonha de nada: nem de apresentar trabalho na frente da classe, nem de falar bobagem, nem de cuspir no prato que comeu. Porque essas coisas, segundo ela, se alguma pessoa ainda não fez, um dia vai ter que fazer.

A quarta pessoa confiava na quinta, na sexta, na sétima, na oitava… até perceber que nem toda pessoa vale a pena. E lá pela trigésima nona ela se cansou e mandou à merda, porque paciência (de toda pessoa) tem limite. Ela já teve o coração maltratado e desconfia que partiu um ou outro, mas garante que foi sem querer.

A quarta pessoa tem um pouco da terceira e, quem sabe, até alguma coisa da segunda. Mas o que ela não admite por nada é que muito, muito mesmo, ela tem é da primeira.

L.

E como se eu tivesse tempo…

April 8, 2007

E como se eu tivesse tempo pra isso, decidi escrever. Talvez para fugir de tudo mais que não me deixa ter esse tempo. Talvez para entender minha relação com as palavras, que por algum motivo se tornou mais intensa de uns tempos pra cá. Talvez porque eu esteja lendo Manuel Bandeira. Ou, simplesmente, talvez para não precisar mais ouvir “por que você não escreve?”, pergunta que eu nunca soube responder e que ecoa na minha cabeça por semanas toda vez que a ouço.

Já tive diários. Quando ter um diário se tornou coisa de criança, passei a escrever em folhas e folhas de papel que depois queimava ou rasgava e jogava fora. Já tentei fazer poesia, mas quem não tentou? Já redigi cartas e mais cartas – que se tornaram e-mails quando a tecnologia pediu. Resolvi virar jornalista e o mercado me fez assessora de imprensa. Já estudei idiomas – três além do meu –, achando que isso fosse suprir a minha necessidade pelas palavras, mas só aumentou minha fome por elas.

Já tive um blog. Bobo e raso, assim como eu naquele tempo. Na esperança de não ser mais tão boba e talvez um pouco menos rasa, faço uma segunda tentativa. Afinal, para escrever é só começar com letra maiúscula, terminar com um ponto final e, no meio, colocar idéias. Se Neruda falou, não sou eu que vou discordar.

L.